Escultor Alves de Sousa ::: 1884-1922

António Alves de Sousa, escultor português,renasce aqui, 125 anos depois

domingo, 10 de janeiro de 2010

Entrevista com o Escultor no Hotel Universo, Chiado (Jornal "O Mundo", 15 de Abril de 1914)


Março de 1914.
Em plena polémica do concurso para o monumento ao Marquês de Pombal, em Lisboa, o jornal "O Mundo" recebe na sua redacção uma carta do escultor.

O crítico de arte e jornalista Oldemiro César resolve rumar ao Hotel Universo, que ao tempo tinha as suas portas abertas em pleno Chiado (e onde Alves de Sousa ficava sempre que tinha de se deslocar a Lisboa), para tirar a questão a limpo, entrevistando directamente o escultor.

O presente para os nosso seguidores é, pois, este: a transcrição desta raríssima entrevista. Aqui vai:

"Domingo, Lisboa, 15 de Abril de 1914
Jornal "O MUNDO"
Coluna "Arte & Artistas"
O PROJECTO DO MONUMENTO AO MARQUÊS DE POMBAL
_________
Dois concorrentes que protestam contra a classificação do concurso
_________
A´manhã o publico e a critica pronuciar-se-hão

Levanta celeuma a decisão do juri que pronunciou ha dias o seu parecer sobre as maquettes dos concorrentes à execução de um monumento ao marquês de Pombal. Um carta ontem recebida nesta redacção, que em seguida transcrevemos, parece indicar que não foi ditada tal decisão por um rigoroso sentimento de justiça e com absoluto criterio artistico. E' pelo menos o que diz o escultor Alves de Sousa, nos seguintes correctos termos:



"Sr. director do Mundo - A'cerca do concurso para o monumento ao Marquês de Pombal, a que o jornal de v. se refere hoje, tenho a honra de lhe comunicar que o meu companheiro José Marques da Silva e eu, autores do projecto que obteve o 2º premio, tencionamos apresentar um protesto contra essa classificação. Não me alongarei em considerações para basear esta nossa resolução, pois sei quanto é preciso o espaço de que v. pode dispôr no seu conceituado jornal. Essas considerações, e o publico, se encarregarão de as fazer na proxima quinta-feira quando puderem comparar a nossa maquette com a dos nossos colegas que obtiveram o primeiro premio. Não é nosso intuito amesquinhar, em merito absoluto, a obra delles, nem é delles que nos queixamos. O nosso protesto é sobretudo contra a classificação relativa que foi feita e mesmo contra a forma como decorreu o concurso. Não queremos tão pouco insinuar que o juri procedeu com uma comsciente injustiça, mas apenas que houve precipitação na classificação e que por isso ella deve ser corrigida. Não compete, de resto, a nós fazer o elogio da nossa obra, que aliás elaboramos com o maior carinho e com comsciencia de que ella é a obra de arte que impunha uma capital como Lisboa e uma figura historica como a de Pombal. Por isso nos limitamos a pedir encarecidamente a v. , ao publico e à crítica imparcial que visitem a exposição das maquettes na proxima quinta-feira, que as compararem, sem sugestão, sem parti-pris, com serenidade, e que em sua comsciencia digam se a arte e a justiça não foram profundamente feridas neste concurso para o qual estão voltadas as atenções de todo o país. Pedindo desculpa a v. do tempo que lhe tomei, tenho a honra de me subscrever, etc. - António Alves de Sousa.

Desejosos de esclarecer tão momentoso e importante assunto, procurámos esta madrugada ouvir do signatario desta carta, que está hospedado no Hotel Universo, ao Chiado, mais expressas razões que justificassem o seu descontentamento. O Sr. Alves de Sousa, que é incontestavelmente um grande escultor, possuindo uma vasta educação artística, da melhor vontade se prestou a atender-nos, expondo como primacial motivo para a condemnação da maquette premiada em primeiro lugar, que, como se sabe, é obra dos distintos arquitectos Adães Bermudes e Antómio do Couto Abreu e do escultor Francisco dos Santos, o facto destes três artistas terem alterado de fond en comble o ante-projecto, agora absolutamente diverso do que era.
"Reuniu o juri no sabado em sessão preparatoria e por artes estranhas transformaram-na em definitiva não hesitando em proncunciar-se sobre o concurso, apesar de não estarem presentes dois dos seus membros, Teixeira Lopes e Veloso Salgado. Sob o ponto de vista estetico condemno absolutamente a maquette premiada. Falo como artista e e não como despeitado. As figuras não teem grandeza e todo o conjunto é mesquinho, resultando um monumento pequeníssimo, verdadeiramente improprio do local a que se destina. Depois a competencia do juri....Compunham-no arquitectos, três engenheiros e um escultor. A competencia dos engenheiros em materia de arte é mais do que duvidosa. Dos arquitectos apenas direi que como oficiais do mesmo oficio não lhes desagradaria desmentir o proverbio que os dá como figadais inimigo. Resta o escultor. Era um unico voto que poderia pesar na decisão final. O que eu desejo é apenas que o publico, o supremo juiz nestes assuntos, a quem não move o interesse mesquinho ou a vontade irritada, sobre elle se pronuncie."
As maquettes já estarão amanhã em exposição na Sociedade Nacional de Bellas-Artes. Pronunciar-se-ha a opinião do publico. E' de crer que sim, que não lhe falta o que aos membros do juri faltou, salvo honrosa excepção - independencia e senso-comum.
Oldemiro Cesar"

E a polémica prosseguiu acesa durante uns (bons) anos.
Esta entrevista foi publicada há praticamente 96 anos.

Erros da pequena história

O escultor Alves de Sousa nunca teve direito à dedicação exclusiva de um historiador rigoroso. Embora as teses da Dra Lúcia Matos e do Dr António Cardoso se tenham debruçado, pela primeira vez usando métodos científicos e devidamente habilitados, sobre facetas do escultor, nunca o tiveram como principal objecto de investigação. Para a Dra Lúcia ele é um entre muitos escultores, e, como se sabe, o objecto de estudo e tese do Dr António Cardoso foi o Arquitecto Marques da Silva. Embora saudando o carinho e empenhamento do Padre Romero Vila e do decano de Vilar de Andorinho, J. Costa Gomes, a verdade é que nos seus trabalhos, publicados abaixo, encontramos algumas imprecisões que convém ir aclarando com maior rigor, à medida que prosseguir esta investigação, embora lembrando, para todos os efeitos, que o signatário, sendo bisneto e apaixonado do escultor, também não é um cientista habilitado, embora se venha esforçando em ser rigoroso.

Hoje olhamos brevemente para a bonita fotografia supra, que tem 99 anos, e vem sendo legendada nos sucessivos trabalhos leigos e artigos de jornal ao longo dos tempos como sendo a "noiva de Alves de Sousa". Algumas da legendas garantem, inclusive, ser ela a própria Germaine Lechartier.

Ora, não é, nem nunca foi, pelo menos do que é possível conhecer. Embora a vida amorosa do escultor seja ainda nuvem densa, pensa-se que só teve uma noiva, e eventualmente mulher (não há ainda certezas, como sabem, sobre o casamento), mãe dos seus filhos, a minha bisavó Germaine Lechartier, só revelada postumamente à família pelo escultor.

Se se ler com atenção a dedicatória da fotografia supra, nunca até hoje publicada (é um orgulho, é; como não?:), é possível tirar com clareza da cuidada caligrafia: "A mon ami Antonio (...), Geneviéve (...)".

Não é difícil perceber, até por comparação com as imagens aqui publicadas de ambas, que Geneviéve e Germaine não são a mesma pessoa.

Um erro, pois, replicado através dos tempos.

99 anos depois, fica esclarecido.

sábado, 9 de janeiro de 2010

126º

Olá! Já não vínhamos cá desde 25 de Agosto, mas não devem pensar que algo esmoreceu, bem pelo contrário. O espólio e os documentos para o estudo aprofundado da vida e obra do escultor continuam a encher a prateleira que lhe está dedicada cá em casa (há dias, cresceu com um livro que comprei sobre Gulhermina Suggia, sua contemporânea no Porto e em Paris), e é bom lembrar que esta investigação, sendo aberta e potencialmente infinita, tem um encontro marcado com o ano de 2015. Isto porque a pressa sempre foi má conselheira. Se a minha actividade fosse apenas esta, e fosse possível uma dedicação exclusiva, poderia ganhar-se um a dois anos, mas como não é...vamos ter de lá ir por marés:))).

Pegar em Alves de Sousa como nele peguei em três loucos meses do ano passado, de forma compulsiva e dedicando-lhe todos os pedacinhos livres, em princípio, só vai ser possível de novo em 2011.
Se bem se lembram, além de ser advogado em exercício, em 2010 tenho um livro para publicar, um para terminar e outro para começar em força. As minhas leituras têm o exclusivo deste último, sobre o Holocausto, pelo que não me sobrará tempo para mais nada que não a procura de documentação em alfarrabistas, jornais antigos e livrarias.
2010 vai trazer-nos, certamente, uma enorme variedade de obras sobre a Implantação da República, e é fundamental estar atento a cada uma. O escultor Alves de Sousa é um dos símbolos esquecidos da República, e consta que o seu pai, amigo pessoal de Teixeira Lopes-pai, que por sua vez o era de Sua Majestade o Rei D. Carlos, terá sido um dos apoiantes da Monarquia do Norte

Falta um minuto para que terminar o dia 9 de Janeiro de 2010, dia do 126º aniversário do seu nascimento, e também o da sua neta Filomena, bisneto Paulo e trineta Rita. Por isso mesmo, hoje trazemos dois presentes a quem tem a gentileza de seguir este blogue sobre o escultor: a fotografia de um detalhe (acima) e.... bom, pelo outro o melhor é esperar mais um pouco, porque vale a pena:).

Parabéns, António!

Foto: Objectiva pertencente à máquina fotográfica de António Alves de Sousa, guardada pelas suas netas, filhas da sua filha Hidrá.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Alves de Sousa, Pinto do Couto e Oliveira Ferreira


Uma rara e notável fotografia em que se pode ver, da esquerda para a direita, Alves de Sousa, Rodolfo Pinto do Couto e Oliveira Ferreira. A fotografia não está datada nem localizada, foi encontrada no, e continua a pertencer ao, espólio da família do escultor, mas tenho fortes suspeitas de que será a mais antiga fotografia do Escultor a que tive acesso, e cuja data se deverá situar entre 1903 e 1907, eventualmente contemporânea da que acompanha o seu trabalho de final do curso de Escultura, em 1905 (pelo menos o corte de cabelo e o bigode são idênticos). Deverá ter sido tirada em frente ao ateliê do mestre António Texeira Lopes, na Rua Marquês Sá da Bandeira, onde hoje funcionam as oficinas e a Casa-Museu Teixeira Lopes.

Data da Morte de Alves de Sousa: 5 ou 6 de Março de 1922?

Ora aqui está um belo berbicacho.
O Escultor Alves de Sousa morreu no Domingo, 5 de Março de 1922, ou na Segunda-feira, 6 de Março?

Com este "post" abrimos a discussão sobre a matéria, ainda nada pacífica, e aqui viremos fazer as actualizações que forem necessárias, de acordo com o andamento da investigação.
A certidão de óbito diz que o escultor Alves de Sousa faleceu a 5 de Março, mas o que dizem os documentos oficiais, principalmente ao tempo, não se pode "escrever" (vide o caso do filho do escultor, Caius, cujo nascimento terá sido declarado oficialmente com dois anos de atraso). Pode haver erro na declaração, muitas vezes feita com consternação ou por interposta pessoa. Vamos deixar uma análise minuciosa a este documento para outra altura, completando este parágrafo posteriormente.

Na lápide está a data de 6 de Março de 1922, como se pode ver pela fotografia junta, e dos três jornais até agora escrutinados, nada consta do Comércio do Porto (considerei-o muito estranho, quando detectei a falta), no dia Diário de Notícias vem uma breve notícia na edição de 7 de Março, Terça-feira, mencionando que "faleceu ontem", e o mesmo, mas ligeiramente mais desenvolvido (com uma curta nota biográfica), n´"O Primeiro de Janeiro", que noticia também que o funeral se realizava naquele mesmo dia, 7 de Março de 1922, a partir das 18h, com missa rezada na Igreja Paroquial de Vilar de Andorinho.
Contudo, "O Primeiro de Janeiro" não se publicava, ao tempo, à Segunda-feira, pelo que não houve edição de 6 de Março.

Começo a pensar, e a trabalhar a hipótese, de a hora da morte ter sido literalmente "por volta" da meia-noite de Domingo, 5 de Março, e ter sido gerada a confusão de o seu último suspiro se ter verificado antes ou depois da meia-noite. O corpo pode ter sido encontrado depois da meia-noite já frio, por exemplo, e haver quem tenha deduzido que a hora da morte havia sido anterior á meia noite, e quem a atribua à madrugada do dia 6. Meras especulações, que no entanto nos ajudam sempre a aproximar dos factos.

Será agora seguida uma linha de investigação que se debruçará sobre os procedimentos sanitários em uso em 1922. Não podemos esquecer que a "Gripe Espanhola" (para quem não sabe, a primeira variante, diz-se que bem mais mortífera, do agora tão propalado vírus da Gripe A, o H1N1) tinha levado centenas de milhar à morte em toda a Europa no final da primeira guerra mundial (entre elas, diz-se, sem prova factual, a noiva de Alves de Sousa, Germaine Lechartier - sobre esta questão, ver este artigo neste mesmo blogue), e que certamente terão ficado procedimento sanitários severos. Pode haver registos de algum delegado de saúde que tenha observado o corpo, e fundamentado a certidão de óbito.

Recordemos que a causa de morte que consta da certidão de óbtio é a Sífilis Cerebral, uma doença degenerativa (a mesma que terá vitimado, por exemplo, Nietzche, Mussolini, Al Capone, etc), consonante com alguns relatos remotos de perda de conhecimento por parte do escultor, que se terão agravado com a aproximação da morte. Ele que tanto sofrera dos pulmões, já nos anos de Paris, ao ponto de ter sido aconselhado a passar uma temporada nos Alpes Marítimos, o que fez, veio a morrer de um doença terrível e imprevista.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Os primeiros a chegar a Lisboa:)

Antes de mais, peço paciência a todos os que são, como eu, apaixonados pelo Escultor Alves de Sousa, e se habituaram a visitar o seu blogue. Nem sempre é possível conciliar a actividade profissional com a de investigador, e mesmo que o seja, dou prioridade ao tratamento de informação, e tenho muito trabalho de tratamento da informação já obtida pela frente, que espero deixar pronto no final do Verão. É para mim honroso, contudo, constatar que é a primeira vez que um investigador do escultor chega às fontes históricas do Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Lisboa. Estive lá no dia 24 de Maio passado, numa bela manhã de Primavera, numa ala do Palácio das Necessidades, esse mesmo onde, entre vários outros eventos relevantes, estiveram depositados os corpos do Rei D.Carlos e do seu filho, príncipe Luís Filipe. Pelo inventário que me tinha sido previamente enviado, sabia e sei que a tarefa é hercúlea (são milhares de documentos). Nada que me faça esmorecer. Pedi um livro (são centenas), que seleccionei do inventário por me parecer promissor, e voilá! Nas primeira páginas, tive logo o prémio (merecido, penso:). Uma entrada no diário da embaixada/legação, a atestar a chegada de Alves de Sousa a Paris no dia 24 de Janeiro de 1909. Que agora podemos considerar um facto sólido, o que não era possível apenas pela carta de Alves de Sousa, já aqui publicada, até porque, pela correspondência consultada, sabemos que, muitas vezes para se proteger, nem tudo o que o escultor escrevia era verdadeiro. Se "clicarem" em cima da imagem junto a este "post", poderão ver a página do livro com mais detalhe. Agora falta o resto, e, como não somos profissionais nem subsidiados, tomaremos os anos que forem precisos. Há algo que é importante deixar aqui registado: o inventário do que Alves de Sousa deixou em Paris (peças e, desejo eu, a correspondência recebida por ele em Paris, que pura e simplesmente se "evaporou" e foi, até hoje, impossível localizar;) foi feito pelo Consulado, e não pela Legação ou Embaixada. Esse inventário seria essencial para determinar onde pode estar o espólio menos conhecido e referenciado.

domingo, 3 de maio de 2009

A campa de G. Lechartier Alves de Souza

Esta fotografia, encontrada num oratório da filha do escultor, Hidrá, já falecida, foi um achado em termos de investigação. Em termos pessoais, impressiona-me. Confirmei, a partir desta foto, dois factos certos e um provável. A data de nascimento (9 de Maio de 1887), da morte (30 de Janeiro de 1919 - corria a ideia de que teria falecido em 1918, mas pelo momento da deslocação de Alves de Sousa à Normandia, que já tinha sido possível determinar como no início de 1919, com estada presumida de mais de um mês, tal já tinha sido posto em crise nesta investigação), e a probabilidade de, realmente, o escultor e Germaine serem casados. Claro que é possível que o escultor, temendo o vexame de chegar à Normandia com o corpo da companheira sem com ela ser casado, o tivesse declarado sem o comprovar, mas tal parece pouco provável, até porque chegaram aos nossos dias relatos de que a família de Germaine se terá oposto inicialmente ao casamento. Portanto, a versão que agora nos propomos provar é a de que Alves de Sousa terá conhecido Germaine entre 1909 e 1911, e esta terá engravidado do filho Caius em meados de 1911 sem ser ainda casada com o escultor. Caius terá nascido em 1912 (em que dia não sabemos, já que não é certo que tenha nascido no mesmo dia constante da sua certidão de nascimento - 3 de Fevereiro - dois anos antes da data que nela consta - 1914;), pelo que o casamento, a ter ocorrido, terá de ser de finais de 1911 ou princípios de 1912, a não ser que também à família Lechartier tenha sido escondida a gravidez e o nascimento, caso em que o casamento pode ir até 1913 (até, pelo menos, Maio de 1913, 9 meses antes da data de nascimento falsa declarada ao registo civil português: 3/2/1914). A hipótese que exploraremos é a de que a família Lechartier teria tido conhecimento da relação e do casamento antes da morte de Germaine, mas não a família de Alves de Sousa (que só soube de toda a história quando Alves de Sousa chegou viúvo e com os filhos a Vilar de Andorinho, em 1919). Há também relatos de que o escultor terá deixado os filhos na Normandia durante 5 meses, quando lá se deslocou para o enterro da mulher (ou companheira). Finalmente, há ainda que apurar o nome completo de Germaine, que ainda é uma incógnita. Curiosa a opção de abreviar o nome próprio na lápide. Podem ter sido omitidos os restantes (Marie Victoire). Também é importante determinar o cemitério em que está enterrada, e que de momento é também uma incógnita (tem de admitir-se a hipótese, embora remota, de estar enterrada em Paris).

quarta-feira, 29 de abril de 2009

João Chagas e Alves de Sousa

Embora a investigação sobre o relacionamento entre ambos vá prosseguir por muito tempo, já vos posso transmitir algumas informações seguras. Alves de Sousa não conhecia previamente (à sua chegada a Paris, em 1909) o embaixador João Pinheiro Chagas, nem este aquele. Curiosamente, fazia parte do feitio de ambos uma peculiar desconfiança inicial pelo interlocutor. João Chagas, mais velho (uma geração), e duas vezes primeiro-ministro de Portugal durante a Primeira República (1911 e 1915), alvo de atentado a tiro por um senador da República, João de Freitas numa viagem de comboio Porto-Lisboa em 1915, quando ia precisamente assumir de novo o cargo de Primeiro-Ministro depois da Revolução de 15 de Maio ter destituído o ditador Pimenta de Castro (a ditadura foi a razão de Chagas ter apresentado a sua demissão de Embaixador em Paris no princípio do ano, e regressado a Portugal), o que o fez perder um olho (mais pormenores aqui - blogue "Revista à Antiga Portuguesa" e aqui - ISCCP), é de uma desarmante lucidez nos seus escritos (escreve muito bem, aliás), e isto independentemente da sua ideologia (Anti-germanófilo, Republicano e Pró-Guerra). Raros são os que poupa.É inclemente com a figura e com as ideias de todos aqueles com quem se cruza (foi aliás o que escreveu numa espécie de memórias políticas que lhe valeu o atentado), sejam ou não do seu quadrante político. Não admitia banalidade e pedantismo. À medida que foi prolongando a sua estada em Paris como Ministro de Portugal (embaixador), foi também desenvolvendo uma relação pessoal com Alves de Sousa, que acabou por apadrinhar, convidando-o inúmeras vezes para almoçar ou jantar. Trocaram favores, Alves de Sousa ofereceu-lhe algumas das suas obras e realizou o busto de Madame Chagas, a Maria de João. Comecei a explorar este filão, aliás, quando descobri uma entrada na página 4 no II Volume do Diário de João Chagas (clicar na imagem acima), em que este relata a recepção na Legação no dia 1 de Janeiro de 1915 do, entre outros, "esculptor Alves de Souza". A rotina de João Chagas no dia 1 de Janeiro de cada ano passava sempre pela Recepção ao Corpo Diplomático no Eliseu por parte do Presidente da República francesa, à altura Poincaré, seguida de uma visita ao velho Clemenceau (tão velho que viria a ser novamente primeiro-ministro de França em 1917, com 76 anos) e, finalmente, à Recepção na própria Embaixada de Portugal. Alves de Sousa não se cansava de garantir que o Ministro de Portugal era muito seu amigo, visitando-o amiúde no ateliê do 52 da Rue Vercingètorix, apreciando as suas obras (vai ver várias vezes o Orphée). Mais tarde, quando Alves de Sousa tenta (sem sucesso) ser admitido como professor na sua própria escola, a Accademia de Belas Artes do Porto, e como lhe faltasse um requisito formal essencial (o segundo grau da instrução primária), relata que Chagas lhe teria garantido que, se o Governo não fosse sensível à argumentação (de que a sua educação e desempenho artísitco em Paris dispensava o mencionado requisito formal), se arranjaria uma Portaria qualquer para que o escultor fizesse um exame extraordinário que lhe desse equivalência às habilitações em falta. Alves de Sousa, contudo, nunca viria a conseguir resolver este problema, o que terá sido uma das suas grandes frustrações. É que o escultor Oliveira Ferreira, amigo de infância mas inimigo de estimação dos anos de Paris, e a quem Alves de Sousa não reconhece grandes qualidades pessoais, havia conseguido ser interinamente o regente da cadeira de escultura quando Teixeira Lopes bateu com a porta, em 1916, substituindo o mestre de ambos.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Que homem, que ideias (Modelando o Orfeu)?


Alves de Sousa escreveu várias vezes que se tinha metido em trabalhos, dada a dimensão desta estátua que aqui podem ver a ser modelada - o resultado final está dois artigos abaixo. Repara-se na figura de Alves de Sousa, nas suas mãos enormes (era um homem pequeno - não deveria passar o metro e setenta), pose de romântico tardio, artista claramente do seu tempo, naturalista dos naturalistas. Se virem fotografias de um seu contemporâneo, Amadeo de Souza Cardoso, repararão que tinha uma figura e uma imagem muito actuais - era, pois, um homem de vanguarda. Não Alves de Sousa. Este leva-nos em viagem para o início do Séc.XX.O pai, Joaquim de Silva e Sousa, era monárquico, e terá pertencido à revolta de 1919 (a chamada Monarquia do Norte). Como já se referiu abaixo, Alves de Sousa também terá começado o seu percurso artístico pela mão de amigo do Rei D. Carlos, Teixeira Lopes (pai), tendo como mestre (e frequentado o ateliê de) outro Teixeira Lopes (filho).As suas posições políticas seriam muito próximas de João (Pinheiro) Chagas, cujos Diários são notáveis peças históricas para reconstituição do ambiente da Primeira República.

Fotografia pouco vista


Esta fotografia de Alves de Sousa, oferecida ao Arquitecto Marques da Silva com dedicatória, é das menos vistas do escultor. Estava a adiar a publicação para apurar a data exacta da fotografia, mas decidi publicá-la mesmo assim. Caso não tenham ainda reparado, todos os artigos constantes deste blogue vão sendo aperfeiçoados à medida que a investigação avança. Embora a especulação e o silogismo de deduções quase sherlockianas seja útil para aproximações à realidade, sempre que há factos incontestáveis volto cá para que a credibilidade deste sítio não seja afectada.

terça-feira, 14 de abril de 2009

O "Orphée" - Orfeu


Orfeu, assolado pela sua infelicidade, procura Eurídice em vão. Acabara de a perder para sempre.
A bonita história (da mitologia grega) de Orfeu pode ser lida aqui.
Em 13 de Novembro de 1911, Alves de Sousa envia, já com algum atraso, à Accademia de Belas Artes do Porto uma das suas provas do penúltimo ano de pensionista (haveria de conseguir prolongar a sua estada como pensionista até 1913, permancendo depois em Paris, a expensas próprias, até 1921, ano anterior ao da sua morte, com várias viagens de permeio a Portugal), e que aqui reproduzimos: o Orfeu.
Quem quiser vê-la ao vivo, deve visitar a Faculdade de Belas Artes do Porto, a São Lázaro (quase em frente à Biblioteca Municipal). Ao entrar na faculdade vira-se à esquerda, para o jardim interno, atravessa-se o mesmo, e o Orfeu encontra-se, imponente, à entrada de um dos pavilhões de aulas. Devo dizer que não tinha ideia de que a estátua era tão grande. Tinha-a visto apenas em fotografias, e parecia-me da dimensão de meio corpo. Quando dei de caras com ela e tive de observar aquela expressão de dor vinda de um homem com quase três metros, fiquei abismado.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Textos científicos e leigos que abordam Alves de Sousa e Oliveira Ferreira


Em termos de rigor científico,  e abundantemente documentadas, sugerimos vivamente as Teses de Doutoramento da Prof. Dra Lúcia Matos, "Escultura em Portugal no Sec.XX - 1910-1969", edição da Fundação Calouste Gulbenkian, e a do Prof. Dr. António Cardoso, "O Arquitecto Marques da Silva e a Arquitectura no Norte do país na primeira metade do Séc. XX", com edição da FAUP, e ambos ainda disponíveis em livrarias; Quer um quer outro vão para além de meras teses académicas. O livro da Dra Lúcia Matos chega a ser entusiasmante para quem quiser aprender um pouco sobre escultura e escultores portugueses, com uma escrita que é simultaneamente concisa e crítica, com uma leitura agradabilíssima;
Da pena de leigos empenhados na cultura gaiense, estão aqui três pequenas biografias que dão pistas e permitem diferentes abordagens do escultor Alves de Sousa e do seu colega de curso e ateliê Oliveira Ferreira (o ateliê de Teixeira Lopes filho, bem entendido). Com autorização do autor, no caso de Joaquim Costa Gomes, pessoa de grande bondade e sabedoria que gentilmente me recebeu há dias em Vilar de Andorinho, e convicção de prestação de serviço público no caso do Padre Romero Vila (clicar em cima dos títulos para download - preferencialmente com o botão direito do rato, escolhendo "Guardar", para não congelar o browser). 

- "O Escultor Alves de Sousa - Traços Biográficos e História de Dois Concursos" - Romero Vila

Edições "Maranus"

- "Alves de Sousa - talento simples em Alma Simples" - J. Costa Gomes

Separata do Boletim Cultural dos Amigos de Gaia - 1982

- "José de Oliveira Ferreira - um escultor quase esquecido" - J. Costa Gomes

Amigos de Gaia, Maio 1981

A qualidade das digitalizações não é excelente, mas é nosso escopo, apenas e só, facultar o acesso ao conhecimento de forma livre, ainda para mais no caso de uma personalidade que tem escassa informação disponível.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Son Amour, Victoire


Sei que era Lechartier de apelido, sei que tinha entre os nomes Victoire e Germaine, mas não tenho certezas absolutas da sua ordem. A mais provável será Germaine Marie Victoire Lechartier. Presumo que tenha sido pianista, mas ouvi a minha vida toda que tinha sido pintora. Presumo que provirá de uma família da Normandia, e que quase todos os Lechartier se concentravam numa pequena vila (talvez Saint-Pair, talvez Granville, talvez Cherbourg, talvez todos! O certo é que parecem provir da divisão administrativa de Calvados ou Mache). Muitos deles foram embarcadiços, terão origem judaica e o desembarque na Normandia ter-lhes-á trazido muito drama. Sei muito pouco sobre a minha bisavó e família francesa, mas quero saber muito mais. Talvez olhar para ela e descobrir alguns dos meus traços ajude. Dois factos indesmentíveis: foi o amor da vida do escultor Alves de Sousa e sem ela eu não estava aqui.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Homenagem aos escultores que permitiram que Alves de Sousa se tornasse imortal


Apesar do abandono a que foi votada a memória do escultor Alves de Sousa (ainda assim, não foi o mais infeliz: acabei de verificar que o seu colega de curso, Oliveira Ferreira, ainda anda mais esquecido), a autoria da parte escultórica da "estátua do leão e da águia na Boavista" (Monumento aos Heróis das Guerras Peninsulares) foi a porta para a imortalidade. Ora, como se sabe, pelos anos trinta e quarenta do Século XX houve uma forte pressão para que o "Castiçal da Boavista" (apenas o elemento arquitectónico de Marques da Silva estava de pé) fosse demolido e esquecido para sempre. Aliás, como me foi lembrado há dias por neta afim, lá esteve plantado durante a guerra um campo de milho, e outros destinos teriam sido dados à Praça Mouzinho de Albuquerque se não fosse a perseverança de escultores como Sousa Caldas e Henrique Moreira (ainda que, em tempos, tivessem opinado em sentido contrário), que refizeram a maquete executada por Alves de Sousa, actualizando-a. Há lugar para o mérito de todos, e sem o génio de Alves de Sousa e a visão de Marques da Silva não havia monumento. Mas se os escultores que modelaram a estátua depois da morte de ambos não tivessem dado o seu amor à arte para executar a obra dos mestres, e deixar os seus nomes na sombra, ninguém teria podido observar a emoção da mão de Alves de Sousa. Em meu nome pessoal (porque não posso falar em nome de mais ninguém), e o meu nome pessoal ainda é Alves de Sousa, um penhorado obrigado aos escultores que modelaram a estátua do meu bisavô numa das naves laterais do velho Palácio de Cristal (Teatro Gil Vicente), entre 1950 e 1953 . São eles:

- SOUSA CALDAS (envolvido na altura também na parte escultórica do novo edifício da Câmara do Porto, na Cooperativa dos Pedreiros);

- HENRIQUE MOREIRA;

- LAGOA HENRIQUES;

- MÁRIO TRUTA;

- PEREIRA DA SILVA (que viria a ser o autor do busto do escultor - ver abaixo)

Embora a estátua tenha sido inaugurada em Maio de 1952, depois de lançada a primeira pedra em 1909, a parte escultórica do desatre da Ponte das Barcas, na face Noroeste - a mais emocionante, a mais "Alves de Sousa" e constante da foto em anexo - terá sido terminada em 1953 na Cerâmica do Carvalhinho, em Gaia, isto segundo o testemunho do Professor João Duarte, que muito agradeço - e que trabalhava na dita Cerâmica. O professor andara a acartar baldes de cimento durante a modelação das restantes partes, no antigo Palácio de Cristal; aliás, disse-me que o brasão do Porto que está na face Nordeste da estátua foi feito a partir da pedra de uma velha floreira. E esta, hein?

Alves de Sousa no Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros


Já identifiquei esta curiosidade há alguns anos, mas é imprescindível que a registe aqui. Sabiam Vossas Senhorias que o grande Almada Negreiros tinha verberado Alves de Sousa, entre outros, num dos passos do seu "Manifesto Anti-Dantas e por extenso". O manifesto foi escrito em 1916, numa altura em que a polémica em torno do Concurso para o Monumento do Marquês de Pombal estava ao rubro (o concurso foi teve o seu primeiro resultado em 1914, mas seria anulado três vezes). Almada escreveu isto num dos parágrafos finais do manifesto:

"(...) E AS EXPOSIÇÕES ANNUAES DAS BELLAS ARTE(S)! E TODAS AS MAQUETAS DO MARQUEZ DE POMBAL! E AS DE CAMÕES EM PARIS!  (...)"

Morram, claro, como o Dantas, Pim!

Passo a reproduzir o parágrafo em que se insere. Quem quiser ler o manifesto na totalidade, basta fazer a busca na Internet. Está disponível em vários sítios. O parágrafo vai no seu formato e grafia original (só em maiúsculas):

"(...) E AS PINOQUICES DE VASCO MENDONÇA ALVES PASSADAS NO TEMPO DA AVÔSINHA! E AS INFELICIDADES DE RAMADA CURTO! E O TALENTO INSÓLITO DE URBANO RODRIGUES! E AS GAITADAS DO BRUN! E AS TRADUCÇÕES SÓ P'RA HOMEM (D) O ILLUSTRÍSSIMO EXCELENTÍSSIMO SENHOR MELLO BARRETO! E O FREI MATTA NUNES MÔXO! E A IGNEZ SYPHILITICA DO FAUSTINO! E AS IMBECILIDADES DO SOUSA COSTA! E MAIS PEDANTICES DO DANTAS! E ALBERTO SOUSA, O DANTAS DO DESENHO! E OS JORNALISTAS DO SECULO E DA CAPITAL E DO NOTICIAS E DO PAIZ E DO DIA E DA NAÇÃO E DA REPUBUCA E DA LUCTA E DE TODOS, TODOS OS JORNAES! E OS ACTORES DE TODOS OS THEATROS! E TODOS OS PINTORES DAS BELLAS ARTES E TODOS OS ARTISTAS DE PORTUGAL QUE EU NÃO GOSTO. E OS DA AGUIA DO PORTO E OS PALERMAS DE COIMBRA! E A ESTUPIDEZ DO OLDEMIRO CESAR E O DOUTOR JOSÉ DE FIGUEIREDO AMANTE DO MUSEU E AH OH OS SOUSA PINTO HU HI E OS BURROS DE CACILHAS E OS MENÚS DO ALFREDO GUISADO! E (O) RACHITICO ALBINO FORJAZ SAMPAIO, CRITICO DA LUCTA A QUEM O FIALHO COM IMMENSA PIADA INTRUJOU DE QUE TINHA TALENTO! E TODOS OS QUE SÃO POLITICOS E ARTISTAS! E AS EXPOSIÇÕES ANNUAES DAS BELLAS ARTE(S)! E TODAS AS MAQUETAS DO MARQUEZ DE POMBAL! E AS DE CAMÕES EM PARIS! E OS VAZ, OS ESTRELLA, OS LACERDA, OS LUCENA, OS ROSA, OS COSTA, OS ALMEIDA, OS CAMACHO, OS CUNHA, OS CARNEIRO, OS BARROS, OS SILVA, OS GOMES, OS VELHOS, OS IDIOTAS, OS ARRANJISTAS, OS IMPOTENTES, OS SCELERADOS, OS VENDIDOS, OS IMBECIS, OS PÁRIAS, OS ASCETAS, OS LOPES, OS PEIXOTOS, OS MOTTA, OS GODINHO, OS TEIXEIRA, OS DIABO QUE OS LEVE, OS CONSTANTINO, OS GRAVE, OS MANTUA, OS BAHIA, OS MENDONÇA, OS BRAZÃO, OS MATTOS, OS ALVES, OS ALBUQUERQUE, OS SOUSAS E TODOS OS DANTAS QUE HOUVER POR AHI!!!!!! (...)"

terça-feira, 17 de março de 2009

Alves de Sousa e o Metro de Paris


Por mais extraordinário que possa parecer, é mesmo verdade.Em 21 de Abril 1908 foi inaugurada a Linha 4 do Metro de Paris, entre Porte de Clignacourt e Chatelet, ainda longe da Rue Vercingetorix. Alves de Sousa chega em Janeiro de 1909, e em Outubro desse mesmo ano abre o restante troço, o Sul, entre Porte d'Orléans e Raspail. O escultor tinha agora a estação da Avenue de Mairie (hoje chamada de Montparnasse Bienvenue) a pouco mais de 10 minutos a pé, devendo entrar nesta e sair na de Saint-Germain-des-Près, caminhando menos de cinco minutos para a École, e reduzindo assim para menos de metade o tempo que demorava a pé (e que ainda assim deve ter feito muitas vezes). Para quem quiser reproduzir o percurso de metro disponível à altura, não confundir a actual linha 13 (que passa muito mais perto do 52 da Rue Vercingetorix) com esta linha 4, única disponível à altura (e ainda existente). A linha 13 apenas chegou (como linha 14) perto da Rue Vercingetorix em 1937. Nessa altura, como hoje, passou a estar a 5 minutos (estação da Rue Pernety), mas Alves de Sousa tinha deixado Paris há quase vinte anos e falecido há quinze.

O percurso para a École des Beaux Arts


Sem grandes aleterações, este deveria ser o percurso mais rotineiro de Alves de Sousa entre a sua residência  e ateliê nos anos de Paris (até ver, não se conhece outra, mas o edifíco da cidade artística de Vercin(gétorix) foi demolido nos anos sententa para construção de uma via rápida; essa via nunca chegou a ser construída, e o local é hoje um jardim;). A pé eram cerca de 40 minutos sem paragens (e havia muitas tentações pelo caminho, pois Alves de Sousa tinha de atravessar quase todo o bairro de Montparnasse) entre o 52 da Rue Vercingétorix e o 14 da Rue Bonaparte. De notar que, nos primeiros meses da sua estada em Paris, Alves de Sousa residiu um pouco mais perto da École, no que se presume ter sido um Hotel no 91 da Rue Vaugirard). Dada a proximidade do Jardim do Luxemburgo ao percurso, permitam-me a liberdade de imaginar António e Victoire em longos passeios dominicais pela sombra das árvores do jardim.

Injalbert, Gibran e o Salon de 1910


Algumas breves reflexões. Alves de Sousa participou, com as obras que deveria remeter para a Academia portuenses no final do ano lectivo que terminava em Julho de 1910, no Salon de Paris. Resta confirmar se expôs no Salon realizado no Grand Palais des Champs Elysées, entre os dias 15 de Abril e 30 de Junho de 1910, se no Salon des Independants, realizado em Maio. Para tal, pediu autorização à Academia em carta datada de 21 de Janeiro de 1910, encapada de uma da "Legation de Portugal en France" com a mesma data, e acompanhada de uma outra do seu mestre A. Injalbert (Jean Antoine), grande escultor francês e coordenador do seu curso, juntamente com o arquitecto Victor Laloux, cuja parte final podemos ver aqui ao lado. Ora, ainda por causa da alegada amizade entre Khalil Gibran e Alves de Sousa (lenda familiar a confirmar), e que me econtro a investigar, devo registar aqui que Gibran chegou a Paris em 1908, portanto antes (e não depois) de Alves de Sousa, e ficou apenas até 1910, ano em que participou no mesmíssimo Salon do Grand Palais com a sua pintura "L'Automne". Gibran residia na 55, rue du Cherche-Midi (Paris VIe ), que ficava sensivelmente a meio do caminho que Alves de Sousa trilhava (indo a pé) entre a sua residência e ateliê, no 52 da Rue Vercingétorix, e a École des Beaux Arts, no 14 da Rue Bonaparte (já em Saint Germain-des-Prés). Moravam a vinte minutos um do outro, o caminho era o mesmo, podiam muito bem ter partilhado muitos percursos e encontros.

segunda-feira, 16 de março de 2009

A primeira matrícula


Aqui ao lado é possível ver, também do próprio punho de Alves de Sousa, o requerimento para a primeira matrícula na Academia Portuense de Bellas-Artes, logo em 1897, com a tenra idade de 13 anos. Alves de Sousa matriculava-se no Curso de Desenho Histórico, que fez até ao 5º ano. Aliás, em Outubro de 1901 requeria simultaneamente a matrícula no 5º ano deste curso e no 1º de Escultura. Estranho é que, um ano depois, em Outubro de 1902, estivesse a solicitar a inscrição no 3º ano de Escultura, dando como concluído o 2º. Terá feito dois anos num.A última matrícula nas Belas Artes do Porto é solicitada em 1905 para o 5º ano de escultura e 1º de Architectura Civil e Perspectiva Linear. Alves de Sousa matriculou-se várias vezes no curso de Arquitectura, não constando que alguma vez o tivesse vindo a concluir com aproveitamento. Sabe-se que concorreu à Bolsa de estudos em Paris em 1907, tendo na altura perdido para Oliveira Ferreira. Ganhou-a em 1908, e chegou a Paris, como se viu, em 24 de Janeiro de 1909, pelas 8 da manhã.

A chegada a Paris


É com emoção que publico a primeira carta escrita pelo próprio punho de Alves de Sousa (clicar em cima para obter maior formato).Enviada à Faculdade de Belas Artes do Porto, e datada de 25 de Janeiro de 1909, reza assim: "Exmo Senhor Director da Academia Portuense de Bellas-Artes, Tenho a honra de participar a Vª Exª que cheguei a Paris no dia 24 do corrente às 8 horas da manhã, e pelo facto de ser dia santificado, foi que só hoje pude apresentar-me na legação do Ilustre Ministro de Portugal.Sou com a maior consideração de Vª Exª,Antº Alves de Souza".Fica assim assente como facto o dia exacto da chegada, pouco após o seu 25º aniversário, e num Domingo (daí a expressão "dia santificado").Veremos também à frente que ganha alguma consistência a versão de que Alves de Sousa terá vindo várias vezes a Portugal, ao contrário do que se pensava. Pelo menos solicita-o ao Director das Belas Artes ao fim do primeiro ano lectivo, em Julho de 1910, o que dificilmente terá sido negado(mas viremos a coinfirmar, por uma questão de rigor) e há uma carta enviada de Lisboa em Outubro de 1913; Especulando um pouco, o que não tendo mérito científico pode ajudar a seguir outras pistas, eu presumo que, por um lado, as saudades de Portugal e a ainda ténue ligação a Paris o fizesse querer viajar de férias para Portugal ano e meio depois de ter chegado. Por outro, parece-me improvável que, caso já tivesse conhecido a sua futura noiva, e na fase mais fogosa da paixão, Alves de Sousa quisesse regressar. Assim, sem certezas, vou apontar o começo do namoro para finais de 1910/princípios de 1911.

sábado, 14 de março de 2009

A Entrada em "Quem é Quem" (as vindas a Portugal e a discussão parlamentar)


Fiquei surpreso quando, um destes dias, circulando pela Livraria Almedina do Arrábida Shopping, peguei sem qualquer esperança no livro "Quem é Quem - portugueses célebres", da editora Temas & Debates, sob a coordenação de Leonel Vieira, e fui surpreendido por uma entrada dedicada ao meu bisavô, o que é coisa rara (só me lembrava, até aqui, de uma na Enciclopédia Luso Brasileira e de outra num Dicionário de Arte).

A entrada é esta:

"SOUSA, António Alves de. Escultor. Vilar de Andorinho, Vila Nova de Gaia, 9.1.1884 - ib. 6.3.1922).De 1897 a 1905 frequentou a Escola de Belas Artes do Porto, onde concluiu o curso de escultura. Em 1908 partiu para Paris, onde se fixou, tendo vindo a Portugal diversas vezes com longas demoras; fez parte do grupo de escultores naturalistas do Porto. Concorreu no Porto a exposições em 1902, 1903, 1904, 1905, 1910 e 1911. Como o arquitecto L Marques da Silva, em 1910, obteve o 1º prémio para o Monumento aos Heróis das Guerras Peninsulares, a erigir no Porto. Em 1914 a mesma dupla de artistas alcançou o 2º prémio no monumento ao Marquês do Pombal(...)"

Termina dizendo que a atribuição do 2º prémio em Lisboa, considerada injusta, causou grande poémica e debate, que chegou ao Parlamento.

Há aqui dois aspecto curiosos, que me levarão para mais dois vectores de investigação:

- A alegada vinda a Portugal "por diversas vezes" é uma novidade para mim. Não há muito tempo, em conversas familiares, havia a convicção de que ele só teria voltado em 1918, com os dois filhos, e após a morte da mulher Germaine Lechartier; vou em busca das fontes; - Nota posterior: as fontes confirmaram que, inequivocamente, ele veio por diversas vezes a Portugal;

- A discussão da questão do Monumento ao Marquês do Pombal no Parlamento: sabia que se tinha gerado grande polémica, que chegou aos jornais, e motivou correspondência do meu bisavô dirigida ao Governo (penso), mas não sabia que tinha sido alvo de debate parlamentar; espero que haja transcrições;

sexta-feira, 13 de março de 2009

Assinatura


Para registo, embora neste caso reproduzida por Marques Abreu na peça "Natividade";

Natividade


Sem qualquer informação, mas parecendo evidente tratar-se de uma cena da Natividade, esta é a cópia da página arrancada a uma revista não identificada, que está legendada da seguinte forma: "Baixo-relevo de ANTONIO ALVES DE SOUSA, Simili-gravura de MARQUES ABREU". A peça, como podem ver contém a assinatura do escultor "Alves de Sousa 1908", pelo que terá sido executada já em Paris;

Detalhe de "Uma mulher conduzindo duas creanças(...)"


Para que seja perceptível a arte do escultor, a expressividade das personagens. Peça identificada no post anterior;

"Uma mulher do povo, conduzindo duas creanças(...)"


Prova final do curso de Escultura, 1905. De acordo com a legenda da Occidental "Uma mulher do povo conduzindo duas creanças, cae debilitada pela fome em um banco de praça publica. Rodeiam-na populares procurando reconfortá-la."; mostro detalhe no post seguinte;

quinta-feira, 12 de março de 2009

O meu galã favorito por estes dias: bisavô Alves de Sousa


Queria que o olhassem bem de perto. Talvez assim possam perceber um pequeno pedaço deste meu arrebatamento. Vem quase do berço. E a verdade crua é que, sem este (grande) homem, eu não exisita. O ano passado, com a idade que ele tinha quando faleceu, tudo se me impôs com muito mais força. Ei-lo. António Alves de Sousa.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Os meus porquês

O tempo corre sobre o seu leito a uma velocidade estonteante e as memórias vão-se perdendo com a morte dos que as guardavam consigo. As memórias da vida curta mas fantástica do meu bisavô. Faleceram todos os escultores que executaram a sua obra prima no Monumento aos Heróis das Guerras Peninsulares, faleceram as filhas e o genro daquele que foi seu mestre, amigo e companheiro de e por excelência, o Arquitecto Marques da Silva. Faleceu o seu filho, meu avô, Caius Marius António Alves de Sousa, comerciante de boa memória na Rua Chã, Porto, de tabaco, instrumentos musicais e miudezas várias. Foi este meu avô, numa tarde de Outono de 1986, em Francelos, que, sabendo da minha queda para a escrita, me disse que, quando se reformasse, gostava de se sentar comigo e contar o que a sua memória ainda retinha da história tão fantástica quanto dramática do meu bisavô escultor. Falava, claro, daqueles ínfimos pormenores que são preciosos a um escritor. Fez-me prometer que lhe daria o meu tempo e a minha arte para escrever a história do escultor Alves de Sousa. Eu era novinho e não tinha bem a noção da preciosidade que me era oferecida, nem a ideia, hoje inequívoca, de que o meu avô nunca se reformaria, e havia de morrer trabalhando, como aliás aconteceu, quando em Maio de 1993 rendeu a vida no final de um dia de trabalho. Nunca nos encontrámos, claro, e temo que muitos pormenores estejam irremediavalmente perdidos. Anima-me o facto de muitas das história que vão passando de boca em boca na minha família precisarem de confirmação factual, e por isso de um trabalho verdadeiramente científico. Não estarei à altura de tal rigor, mas move-me o sangue e a carência física do pedaço que o meu bisavô representa em mim. Sinto-me cada vez mais descompensado por saber muito pouco, e por vê-lo ignorado pelos poderes públicos à medida que os séculos vão virando. Vou morrer neste século, pelo que não posso permitir que os meus descendentes virem para outro sem que o meu bisavô tenha um lugar de honra na história do país que (não) o acarinhou, e que ele objectivamente merece. Urge trabalhar muito e urge trabalhar já. Sinto uma pulsão que, esotu certo, me levará aos mesmos pormenores que o meu avô me queria franquear, ainda que por outras portas. Fascina-me contar a história de uma vida única e do seu amor pela bisavó Germaine Lechartier, uma francesa que ele arrebatou, ou que o arrebatou a ele, no 14º bairro de Paris. Publicitar este esforço é o primeiro passo para que, doravante, tudo o que seja colhido fique pertença de todos.Um Bem haja a todos os que ajudarem a manter o escultor Alves de Sousa vivo.

Razões mais pessoais no blogue...pessoal. Aqui.

Enquadramento da Estátua


Um belo enquadramento do Monumento aos heróis das Guerras Peninsulares, Boavista, Porto

Pormenor da estátua


Pormenor do Monumento aos heróis das Guerras Peninsulares, Boavista, Porto

O leão e a águia


O poder de uma composição de Alves de Sousa que vai servindo de forma prosaica para o combate da segunda circular lisboeta;

Nome de Rua


Uma das placas da Rua que levou o seu nome, que vai sensivelmente do Hospital de Gaia ao centro de Vila de Andorinho, ou vice-versa; a mãozita é do trineto:).

A autoria


Nota-se pouco na "estátua da Boavista", mas lá está, no pedestal, salvo o erro no lado virado a noroeste;

O Trineto e o Trisavô (ambos Alves de Sousa)

Não é meu hábito publicar na rede a imagem do meu filho, mas como esta tem mais de cinco anos e é verdadeiramente pungente (a mim, emociona-me sempre ver esta empatia quase iconográfica entre um trineto de 4 anos e o busto de bisavô falecido, na altura, há 82), aqui fica um testemunho onde as palavras estão sempre a mais;

O busto do escultor


Busto da autoria do escultor Pereira da Silva, inaugurado no final dos anos oitenta para comemorar os 100 anos do nascimento do Escultor Alves de Sousa (9 de Janeiro de 1884), e do qual eu, pessoalmente, gosto muito, porque, se se afasta ligeiramente da parecença física do bisavô, tem muita da emoção e dinamismo que ele impregnava nas suas próprias peças. Acresce que Pereira da Silva, já falecido, não era um escultor qualquer, bem pelo contrário. Faço-lhe aqui essa justiça, presto-lhe homenagem e deixo-lhe um agradecimento público pela sua seriedade. Para quem não sabe, há uma pequena história que é justo ser contada: O Sr. Joaquim Costa Gomes, vulto andorinhense e um dos promotores da iniciativa de se descerrar um busto em honra do meu bisavô, foi apreçar junto do Escultor Pereira da Silva em quanto comportaria, no total, a realização de tal obra. Ora, Pereira da Silva avançou o justo preço de 200 contos. Sucede que o fundidor acabou por lhe cobrar um valor bem mais alto do que era costume, ficando em nada o ganho pessoal de Pereira da Silva, que contudo foi muito claro: a palavra está dada, pelo que não há qualquer alteração de preço. Obrigado, meu caro. Obrigado mesmo! O busto encontra-se no centro de Vilar de Andorinho, Vila Nova de Gaia (em frente à Junta e à Igreja, na praceta com o nome do escultor Alves de Sousa);

"A Estátua da Rotunda da Boavista"


O Monumento aos Heróis da GuerraPeninsular que marca o "Skyline" da Rotunda e Avenida da Boavista, no Porto, há mais de cinquenta anos, tal como se apresenta hoje. A sua construção iniciou-se há cem anos, perfeitos neste ano da graça de 2009. Entre 1909 e e 1951 o monumento teve apenas erguida a sua chamada parte arquitectónica (da autoria do Arquitecto Marques da Silva), sendo por isso apelidado de "Castiçal da Boavista". O meu bisavô faleceu em 1922 (com 38 anos), e já não acompanhou a execução da modelagem das suas esculturas, efectuada muitos anos depois no Palácio de Cristal (hoje Pavilhão Rosa Mota) sob a direcção dos escultores Henrique Moreira e Sousa Caldas.

Acta de Abertura no ano em que se perfazem 125 anos do nascimento do escultor

Declaro aberto o primeiro sítio na internet dedicado ao Escultor Alves de Sousa. Seu bisneto e doravante investigador, Pedro Guilherme (Alves de Sousa) Moreira, que aproveita o pretexto dos 125 anos decorridos sobre o nascimento do escultor.

PS: A filosofia deste "lugar" é a abertura total a todos, com publicação de informação doravante disponível para uso de qualquer pessoa; a ideia é agregar exasutivamente tudo o que ainda existe sobre o escultor;